Educação não é doutrinação: é pensamento crítico, debate e cidadania
Existe uma pergunta que sempre volta quando o Brasil se divide — e ela volta porque toca no coração do que somos como sociedade: a escola deve ensinar política?
Muitos se assustam com essa ideia, temendo que a escola se transforme em palanque. Outros defendem que é indispensável, porque sem cidadania não existe nação. Mas a verdade é que esse debate quase sempre começa errado, porque mistura duas coisas completamente diferentes: ensinar política e impor ideologia.
E aqui está o ponto central: ensinar é destravar o pensamento crítico.
Por esse ângulo, quase tudo pode ser ensinado na escola — desde que o conteúdo seja apresentado de forma aberta, instigante, plural, convidando o aluno a refletir, questionar, comparar argumentos e chegar a conclusões próprias. Educação não é adestramento intelectual. Educação é liberdade interior.
Por isso, eu afirmo com clareza: ensinar política e economia básica é fundamental — mas do jeito certo: com abertura, instigando a crítica e formando o cidadão.
Porque política e economia não são temas distantes, reservados a especialistas. Elas determinam o preço do alimento, o nível de emprego, a segurança pública, o acesso a serviços, o poder de compra, a dignidade do trabalhador e o futuro das famílias.
A escola que não prepara o aluno para compreender isso não está protegendo o estudante — está deixando-o vulnerável.
E aí vem uma verdade que poucos têm coragem de dizer: não ensinar política também é uma decisão política.
Quando a escola foge desses assuntos, o aluno não fica neutro: ele fica despreparado. E em 2026, o vazio não dura. Alguém sempre ocupa esse espaço.
Hoje, quem ocupa esse espaço não é o professor. É a internet.
E a internet não tem compromisso com educação: ela tem compromisso com disputa. Ela não busca formar; busca influenciar. Ela não ensina serenidade; ensina reação. E quando um jovem aprende política por memes, cortes e slogans — antes de aprender o que é Constituição — a sociedade está formando um cidadão emocionalmente capturado.
É por isso que precisamos defender uma ideia simples e civilizatória: a escola deve ensinar política. A escola deve ensinar economia básica. Mas deve fazer isso como instrumento de consciência, não como catecismo ideológico.
O estudante precisa aprender, por exemplo:
• o que é República e o que é democracia
• o que é Constituição e por que ela existe
• quais são os três poderes e qual o limite de cada um
• o que são direitos fundamentais
• o que é liberdade de expressão e qual sua importância histórica
• como funciona o orçamento público
• o que é imposto, o que é dívida pública, o que é inflação
• como a política interfere no emprego, na renda e na segurança
Isso não é doutrinação.
Isso é base.
A escola deve ensinar o aluno a detectar manipulação, propaganda e guerras de narrativa. Deve ensinar a separar fato de opinião, informação de militância, debate de linchamento moral. Porque uma democracia saudável não se constrói com torcidas — se constrói com cidadãos capazes de pensar.
E aqui mora o limite sagrado: a escola não pode impor ideologia.
Nenhum lado tem esse direito. Toda ideologia imposta sequestra o pensamento. E onde há pensamento sequestrado não existe cidadania — existe rebanho.
A educação verdadeira não forma gente obediente. Ela forma gente consciente. Gente capaz de discordar com elegância, resistir à manipulação e manter a própria dignidade intelectual.
No final das contas, a pergunta se resolve com naturalidade: sim, política e economia devem ser ensinadas na escola — desde que para libertar, e não para dominar.
Porque um povo que não aprende a compreender o poder… será governado eternamente por quem sabe manipulá-lo.